quarta-feira, 27 de maio de 2026

Mosteiro da Batalha — Interior, Capela do Fundador, Claustro Real e Sala do Capítulo

 O interior da igreja tem 80 metros de comprimento e oito tramos. É composto por três naves, sendo a nave central mais alta do que as laterais, razão pela qual é reforçada por arcobotantes. As abóbadas são de cruzaria, com torais e cruzeiros simples, existindo uma cadeia longitudinal que liga todas as chaves. Nos flancos da nave central abrem‑se grandes janelas, e nas naves laterais também existem frestas.

Os 16 pilares compostos são de grandes dimensões e delimitam claramente três espaços independentes, correspondentes às três naves. O conjunto impressiona pela perpendicularidade e elegância. O transepto é muito saliente e eleva‑se à altura da nave central; possui quatro absidíolas com abóbadas nervuradas e altas frestas. No topo do transepto, por cima do portal, encontra‑se um enorme janelão onde é evidente a influência do estilo perpendicular inglês. A capela‑mor tem dois tramos retos e uma terminação poligonal iluminada por altas frestas com 25 vitrais, dos quais 18 são do século XVI e sete resultam de restauro recente. À esquerda situa‑se a sacristia. À entrada da igreja encontram‑se as campas rasas do arquiteto Mateus Fernandes e do cavaleiro Martim Maçada, que salvou a vida a D. João I na Batalha de Aljubarrota.

CAPELA DO FUNDADOR Instituída por D. João I como panteão da sua família, tem planta quadrada com 20 metros de lado. Ao centro, oito pilares sustentam uma lanterna octogonal com uma belíssima abóbada estrelada de perfil baixo — uma inovação na arquitetura portuguesa introduzida por Huguet. Dos pilares compostos elevam‑se colunelos até à nascença da abóbada, e nos imperadores dos arcos surgem magníficos queirais de 20 lados, verdadeiros bordados em pedra. Os capitéis apresentam folhagem larga que cobre toda a cesta. A iluminação é abundante, proveniente das janelas das três paredes livres e das janelas da lanterna. No exterior, finos arcobotantes recolhem a pressão da abóbada da lanterna, sobre a qual existiu um coruchéu piramidal. Os pegões funcionam também como contrafortes do corpo inferior. Ao centro, sob a cúpula da lanterna, encontra‑se o túmulo de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, do século XV, com duas estátuas jacentes de mãos dadas, à maneira inglesa. É o primeiro túmulo deste género em Portugal. D. João veste armadura e cota de malha; D. Filipa usa túnica e manto. As cabeças repousam sobre almofadas e estão protegidas por ricos baldaquinos. A arca é grande mas simples; na base veem‑se oito cabeças de leão. Lê‑se a divisa “Por bem” de D. João I e a divisa de D. Filipa, “Y me plet”. D. João I morreu em 1433, com 76 anos, no Paço da Alcáçova, no Castelo de São Jorge, a 14 de agosto — aniversário da Batalha de Aljubarrota. D. Filipa morreu em 1415, com 56 anos, vítima de peste, no Mosteiro de Odivelas.




Nos lados sul e oeste da Capela do Fundador encontram‑se vários túmulos: — O túmulo do Infante D. Fernando, o Santo, morto em Fez aos 41 anos; os ossos chegaram a Portugal em 1471, após a tomada de Arzila. — O túmulo do Infante D. João e de D. Isabel, ambos falecidos com 42 anos. — O túmulo do Infante D. Henrique, com estátua jacente em traje de guerra; morreu em 1460, com 66 anos, sem casar. — O túmulo do Infante D. Pedro e de D. Isabel; D. Pedro morreu em 1449, no Recontro de Alfarrobeira, com 57 anos, permanecendo insepulto três dias até ser levado para Alverca. Os túmulos seguintes são do século XIX, imitando os anteriores: — O túmulo de D. Afonso V e de D. Isabel; D. Afonso V morreu com 49 anos, em Sintra. — O túmulo de D. João II, morto em 1495, com 40 anos, em Alvor, vítima de hidropisia. O corpo foi encontrado incorrupto em 1499, quando trasladado para a Batalha, facto descrito por Garcia de Resende. Em 1570, D. Sebastião mandou abrir o túmulo e encontrou o corpo ainda incorrupto; pegando na espada, exclamou: “Este foi o melhor oficial que houve no nosso ofício”. — O túmulo do Infante D. Afonso, filho de D. João II, morto aos 16 anos numa queda de cavalo em Santarém.

CLAUSTRO REAL 




 O Claustro Real é quadrado, com 55 metros de lado, e possui apenas um piso — algo invulgar na Idade Média. Tem sete arcos por lado. As galerias são cobertas por elegantes abóbadas de cruzaria com torais, cruzeiros, formeiros e uma cadeia contínua, destacando‑se a decoração das chaves. As abóbadas apoiam‑se em pilares adossados às paredes interiores e nos arcos exteriores, que se abrem para o pátio. Não existem mísulas, mas pilares compostos por feixes de colunelos. No exterior, contrafortes de ressalto e uma bela platibanda rendilhada completam o conjunto. O preenchimento dos arcos quebrados já pertence à época manuelina. As bandeiras, apoiadas em delgados pilaretes cobertos por finíssima filigrana de pedra, apresentam um entrelaçado harmonioso com motivos vegetais variados, surgindo ocasionalmente a Cruz de Cristo. No canto sudeste encontra‑se o elegante “croché da cegonha”, ponto culminante do mosteiro; no canto sudoeste, um lavabo com uma fonte de beleza excecional.


SALA DO CAPÍTULO




A Sala do Capítulo é quadrada, com 19 metros de lado. A abóbada, sem qualquer apoio central, forma uma estrela de nervuras ogivais que partem de oito pilares adossados às paredes e convergem no centro, onde se veem as armas de D. João I. Segundo uma lenda relatada por Alexandre Herculano, a abóbada teria ameaçado ruir duas vezes; Afonso Domingues teria permanecido sentado no centro após a remoção dos andaimes para provar a sua estabilidade. Contudo, a abóbada é obra de Huguet, representado numa figura num dos cantos. O portal ogival é belíssimo, com arquivoltas e colunelos decorados com queirais, ladeado por duas janelas geminadas.


Igreja do Mosteiro da Batalha — O Portal Gótico Mais Belo de Portugal


A fachada principal da igreja apresenta três corpos marcados por altos botaréus que reforçam a verticalidade, com o corpo central mais elevado. O portal, considerado um dos mais belos de Portugal, possui seis arquivoltas com figuras dos apóstolos, anjos, profetas e santos. No tímpano, Cristo entronizado surge rodeado pelo tetramorfo, os símbolos dos quatro evangelistas. Acima, uma rede flamejante enquadra o alfiz e conduz ao grande janelão conopial, preenchido por uma composição de rosácea e chamas verticais. Os arcobotantes laterais sustentam o peso da abóbada e criam a típica floresta gótica. A fachada é rematada por uma platibanda rendilhada e apresenta uma assimetria marcada pela Capela do Fundador. Na fachada sul destaca‑se um portal gótico com gablete triangular e armas reais, onde subsistem elementos decorativos de inspiração românica.

Batalha — Mosteiro de Santa Maria da Vitória

 


Batalha é uma pequena vila situada na margem esquerda do rio Lena, profundamente ligada à Ordem de São Domingos e à história da monarquia portuguesa.


A Ordem dos Frades Pregadores foi fundada em 1216 por São Domingos de Gusmão para combater as heresias pela pregação, e cedo chegou a Portugal, com Soeiro Gomes a fundar o primeiro convento dominicano na Serra de Montejunto.



O Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido como Mosteiro da Batalha, nasceu de um voto de D. João I após a vitória de Aljubarrota, em 1385. A construção iniciou‑se em 1388, na Quinta do Pinheiro, e marca o segundo ciclo da arquitetura gótica portuguesa. Afonso Domingues concebeu o plano inicial, de forte inspiração nacional, ao qual Huguet viria acrescentar a influência do gótico perpendicular inglês, visível nas abóbadas e na fachada principal. Ao longo de mais de 150 anos, vários reis — de D. Duarte a D. Manuel I — e mestres como Mateus Fernandes, João Rodrigues, João de Arruda, Diogo de Boitaca e João de Castilho foram ampliando o conjunto, com claustros, capelas, portais manuelinos e elementos renascentistas. O panteão real da segunda dinastia ficou inacabado, dando origem às célebres Capelas Imperfeitas, um dos espaços mais impressionantes do mosteiro. A Batalha tornou‑se, assim, uma verdadeira escola de artistas, com enorme influência na arte e na arquitetura em todo o país.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Fátima — Lenda, Aparições e Peregrinação

 Fátima 

Pequena povoação a oeste da qual fica a Cova da Iria, um local de grandes peregrinações.


 Lenda de Fátima Oureana: 

Em 1158 jovens muçulmanos saíram de Alcácer do Sal para se divertirem na margem do rio Sado e foram surpreendidos pelos portugueses chefiados por D. Gonçalo Hermingues, o Traga‑Mouros. Houve mortos e prisioneiros, que foram levados para Santarém e entregues ao rei. Em recompensa, o rei deu a D. Gonçalo a mais bela cativa, chamada Fátima, que foi batizada com o nome de Oureana. Casou com D. Gonçalo, que recebeu em dote a vila de Abdegas, que passou a chamar‑se Oureana, origem do nome Ourém. Após a morte da jovem, D. Gonçalo retirou‑se para o Mosteiro de Alcobaça, encarregado de fundar um convento numa aldeia próxima, mandando trasladar o corpo de Fátima Oureana para a capela, passando a povoação a chamar‑se Fátima. 


Aparições de Fátima: 

Aparições do Anjo (3). 

Nome: Anjo da Paz. 

No ofício do Arcanjo São Miguel, no Breviário Romano, lê‑se “angelus pacis Michael”, podendo admitir‑se que o anjo das aparições tenha sido o Arcanjo São Miguel. Em 1916 o anjo apareceu três vezes aos videntes: primeiro na Loca do Cabeço, segundo no poço do quintal da Lúcia e terceiro novamente na Loca do Cabeço, onde ocorreu a comunhão mística: Lúcia recebeu a hóstia e Francisco e Jacinta beberam o cálice. 

Aparições da Virgem (6). 

Nome: “Eu sou Nossa Senhora do Rosário de Fátima”.

 As aparições deram‑se na Cova da Iria, sob uma azinheira, em terreno da família da Lúcia. A Cova é uma dolina; Iria significa paz. 

1917: 

1.ª aparição — 13 de maio, às 12h: Lúcia vê, ouve e fala; Jacinta vê e ouve; Francisco vê. 

2.ª — 13 de junho, às 12h, com cerca de 50 pessoas. 

3.ª — 13 de julho, às 12h, com cerca de 5.000 pessoas. 

13 de agosto — cerca de 18.000 pessoas; os videntes não compareceram por terem sido detidos pelo administrador Artur Santos, presidente da loja maçónica de Vila Nova de Ourém, hostil à religião; a mulher teve de batizar em segredo os filhos, a quem ele deu os nomes Democracia e República. 

4.ª — 19 de agosto, às 16h, nos Valinhos. 

5.ª — 13 de setembro, às 12h, com 30.000 pessoas;

 milagre da “chuva das flores”. 

6.ª — 13 de outubro, às 12h, com 70.000 pessoas; 

milagre da “dança do sol”. 


Culto de Fátima: 

Capelinha das Aparições, 1918, 

Construída pelo pedreiro Joaquim Barbeiro; em 1921 celebra‑se aqui a primeira missa; em 1922 é dinamitada e depois reconstruída com alpendre. 


Perto da capelinha encontrou‑se água a menos de 2 metros de profundidade. 


Via Sacra, 1927: 

13 km, com construções separadas por 1 km; a primeira em Reguengo do Fetal e a 12.ª em frente da esplanada do santuário. 

Em 1930, a 13 de outubro, o culto foi oficialmente aprovado pela Igreja pelo bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, declarando as aparições “dignas de fé”. 


Santuário, 1952: 

estilo neobarroco degenerado, devido ao holandês Van Kricken; fachada com torre central de 65 m e sino de sete toneladas; colunatas inspiradas na Praça de São Pedro, em Roma.

Interior 

De uma nave .

Francisco e Jacinta Marto: Após suas mortes precoces devido à gripe espanhola, os restos mortais de Francisco e Jacinta foram exumados e trasladados para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário em 13 de março de 1952, onde repousam no braço direito do transepto da igreja. 

Lúcia dos Santos: Lúcia faleceu em 13 de fevereiro de 2005, após uma vida dedicada à vida religiosa no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra. Seus restos mortais também foram sepultados na mesma Basílica, unindo assim os três pastorinhos no mesmo local de culto.


Via Sacra e Calvário Húngaro, 1964. 

Em 1967 veio o Papa Paulo VI; em 1982 e 1991 o Papa João Paulo II. 

No local onde os pastores guardavam rebanhos formou‑se uma povoação urbana com mais de 100.000 habitantes, 14 hotéis, 8 pensões, residenciais, estalagem, casas religiosas e cerca de 400 estabelecimentos comerciais, dos quais 250 dedicados a artigos religiosos e regionais.

 Existem três museus: dois de cera e um de etnografia regional, perto da casa da Lúcia. Fátima tornou‑se centro internacional de peregrinação e turismo, integrando roteiros de inúmeras agências de viagem.




💛 Porto de Mós | Vila Histórica e Castelo Singular

 Porto de Mós 

 Porto de Mós é uma pequena vila onde D. Fuas Roupinho exerceu o cargo de alcaide‑mor no reinado de D. Afonso V.


Castelo de Porto de Mós

O castelo é uma construção do século XII, reconstruída no século XIV por D. Fernando e transformada em paço acastelado no século XV por D. Afonso, 4.º Conde de Ourém. Este era filho de D. Afonso, 1.º Duque de Bragança, e de D. Beatriz Pereira de Alvim.
D. Afonso V concedeu‑lhe o título de Marquês de Valença, o primeiro título de marquês atribuído em Portugal.

O castelo apresenta planta quadrangular e irregular. Do lado sul, o acesso faz‑se por um portal gótico precedido de um átrio coberto. Sobre este corre uma varanda ao longo de todo o pano, entre duas torres rematadas por coruchéus piramidais.
As duas torres do lado norte já não conservam os seus coruchéus. Na varanda observam‑se duas grandes mísulas que suportavam parapeitos avançados, hoje desaparecidos.

Uma cachorrada lavrada percorre todo o pano mural.
No interior existe um espaço central para onde abrem as várias dependências. A sala principal comunica com a varanda e possui duas janelas de arcos conopiais. A abóbada é de nervuras cruzadas, com fechos decorados com as armas do Conde.








quarta-feira, 13 de maio de 2026

Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça - Século XII

 Conta‑se que, ao sair de Coimbra em 1147 para a conquista de Santarém, D. Afonso Henriques passou pelo alto da serra de Alvados e aí fez voto de doar à Ordem de Cister todas as terras que dali fossem avistadas. De facto, em 1153 faz a doação de um vasto território, onde os monges se instalam de imediato em construções provisórias.

O mosteiro começou a ser construído em 1178 e as obras prolongaram‑se até 1252. Os reis concederam ao Mosteiro de Alcobaça numerosos privilégios e fizeram grandes doações, tornando‑o o mais prestigiado e rico de Portugal. Os abades de Alcobaça gozavam de grande consideração junto da corte portuguesa e da cúria romana; faziam parte do conselho do rei e assistiam aos concílios da Igreja. Ao princípio estavam sob obediência ao abade de Claraval, mas a partir do século XV passaram a depender diretamente do Papa.

Eram senhores de 14 vilas, entre as quais três portos de mar. Nos seus domínios mantinham direito civil e criminal: não se bradava “aqui d’el‑Rei”, mas sim “aqui do Abade”. Os domínios alcançaram cerca de 44.000 hectares, e os monges chegaram a quase uma centena.

Os monges de Alcobaça repartiam o seu tempo entre os ofícios religiosos e o trabalho manual. Mantinham absoluto silêncio, só falando quando o abade ou o prior o permitiam, comunicando entre si por sinais. Levavam uma intensa vida em comum: nunca estavam sós e não dormiam em celas individuais, mas sim em dormitórios coletivos.

Realizaram uma vasta obra de povoamento e desenvolvimento agrícola nos seus domínios. Fixaram‑se numerosos colonos que deram origem a várias povoações, sendo as mais antigas Aljubarrota, Alvorninha, Pederneira e Cós.

Nos lugares mais difíceis de povoar, devido à malária ou ao paludismo, como em São Martinho do Porto, instituíram os chamados “cotos”: criminosos que se refugiassem ali ficavam fora da alçada da justiça real e podiam viver com as suas famílias. Daí a designação popular de “cantos de Alcobaça” para os domínios do mosteiro.

Os monges arrotearam matos, cultivaram campos, plantaram vinhas, olivais e pomares, criaram gado, secaram pântanos, construíram estradas e pontes, introduziram as técnicas agrícolas mais modernas da época e escolheram as culturas de acordo com a natureza dos solos. Por outro lado, exerceram uma importante ação cultural: abriram aulas públicas em 1269 e dedicaram‑se aos estudos históricos, destacando‑se Frei António Brandão (séculos XVI–XVII).

Os privilégios obtidos e as riquezas acumuladas tiveram, porém, consequências nefastas. A direção do mosteiro passou a ser disputada e surgiram abades indignos. No tempo de D. João I, o abade D. João Dornelas aumentou os impostos, alterou os forais e humilhou os colonos, muitos dos quais emigraram. É a este abade que Alexandre Herculano se refere em O Monge de Cister. No tempo de D. João V, o abade D. Nicolau Vieira cedeu os seus direitos ao arcebispo de Lisboa, o famoso D. Jorge da Costa, cardeal de Alpedrinha, por uma renda anual de 150.000 réis — um grave delito de simonia, isto é, compra e venda de bens sagrados.

A decadência tornou‑se grande, mas no século XVIII, com o Marquês de Pombal, iniciou‑se um novo período de prosperidade: fizeram‑se grandes obras no mosteiro, secaram‑se pântanos, desenvolveu‑se a agricultura e atraíram‑se novos colonos. Contudo, a invasão francesa de 1810 e a extinção das ordens religiosas em 1834 causaram danos irreparáveis. Os monges fugiram já em 1833 e o mosteiro foi assaltado pelos liberais de Alcobaça, que pilharam móveis, quadros e tudo o que puderam levar. O saque durou 11 dias, sem que as autoridades interviessem.

A Igreja



A igreja de Alcobaça, dedicada a Nossa Senhora da Assunção e iniciada em 1178, é a primeira construção gótica feita em Portugal. É um caso especial, pois o estilo românico prolongou‑se por todo o século XIII e o gótico só tardiamente se generalizou no país. Trata‑se de uma cópia do Mosteiro de Claraval, construído em estilo gótico. A primeira construção gótica em Portugal foi o claustro da Sé Velha de Coimbra, em 1218.

A fachada foi profundamente alterada no século XVIII, em estilo barroco. Do gótico conserva o portal de sete arquivoltas quebradas, simples, apoiadas em colunelos lisos com capitéis de folhagem estilizada, e a rosácea de preenchimento radiante.

A fachada compreende:

  • parte inferior: portal e dois nichos com mísulas e baldaquinos contendo as imagens de São Bento e São Bernardo

  • parte intermédia: rosácea, duas janelas e quatro estátuas

  • parte superior: duas torres sineiras e, entre elas, o nicho com a imagem de Nossa Senhora da Assunção

A cabeceira é reforçada por arcobotantes, cujos botaréus assentam nas paredes das capelas radiantes, recebendo o impulso da abóbada. São os primeiros arcobotantes construídos em Portugal.


Interior


Com 106 metros de comprimento, é a maior igreja de Portugal. Tem três naves da mesma altura, sendo as laterais mais estreitas. As abóbadas têm três arcos torais e cruzamentos simples. Os arcos apoiam‑se em longas mísulas adossadas aos pilares, a cerca de 3 metros do solo. Os 24 pilares são cruciformes e compostos por colunas adossadas.

O transepto é largo e de duas naves, com quatro capelas quadradas. Nos topos vêem‑se janelas, óculos e portas. A capela‑mor é formada por um tramo retangular e uma abside de nove lados, desenvolvendo‑se em três andares:

  1. arcadas peraltadas comunicando com o deambulatório de nove capelas radiantes

  2. postigos

  3. janelas altas

O conjunto impressiona pela verticalidade e austeridade.

No transepto encontram‑se os túmulos de D. Inês de Castro e D. Pedro (século XIV), considerados os mais belos de Portugal e um dos pontos altos da arte gótica. As estátuas jacentes são de grande realismo: a de Inês, de suave delicadeza; a de Pedro, de serena majestade. As arcas apresentam edículas nas faces longas e cenas diversas nas testeiras.

Túmulo de D. Inês de Castro



A estátua jacente mostra D. Inês com vestuário da época, cabeça apoiada numa almofada e protegida por um baldaquino. À volta, seis anjos. A arca assenta em seis figuras e os lados são decorados com edículas representando cenas da Paixão de Cristo. Na cabeceira há uma representação do Calvário e, aos pés, uma representação do Juízo Final.

D. Inês foi degolada em 1355 no Paço da Rainha, em Coimbra, com cerca de 30 anos. Foi sepultada em campa rasa na igreja de Santa Clara‑a‑Velha. Em 1362, foi trasladada com grande pompa para Alcobaça, acompanhada por clero, nobres, cavaleiros, damas e povo. Não é provável que tenha havido casamento secreto entre Inês e Pedro, mas é certo que D. Pedro quis que ela fosse considerada rainha. Por isso Camões lhe chamou, no século XVI, “mísera e mesquinha, que depois de morta foi rainha”.



Túmulo de D. Pedro



A estátua jacente representa D. Pedro como cavaleiro, segurando a espada. A cabeça coroada repousa sobre almofada; aos pés, um cão. A arca assenta em seis leões e está decorada com edículas nas faces laterais e cenas da vida de São Bartolomeu. Na cabeceira, uma grande rosácea com 18 nichos simboliza a Roda da Fortuna. Aparecem também cenas da paixão de Pedro e da morte de Inês.

A figura de D. Constança, sua esposa, surge com o ventre inchado, aludindo à morte de parto do futuro rei D. Fernando. Pedro casou primeiro com D. Branca, mas o casamento foi dissolvido. Depois casou com D. Constança, de quem teve três filhos: D. Maria, D. Luís (que morreu criança) e D. Fernando. D. Constança trouxe para seu serviço D. Inês de Castro, filha natural de um fidalgo galego. Pedro apaixonou‑se por Inês. Constança tentou impedir a relação, mas sem sucesso. Após a morte de Constança, Pedro passou a viver maritalmente com Inês, de quem teve quatro filhos: D. Afonso (morto criança), D. João, D. Dinis e D. Beatriz. Teve ainda um filho natural, D. João, futuro rei D. João I.

A influência política dos irmãos de Inês levou os conselheiros a convencer D. Afonso IV a ordenar a sua morte.

Segundo Fernão Lopes, D. Pedro tinha desequilíbrios de temperamento; segundo Alexandre Herculano, era “doido com intervalos lúcidos”; segundo Júlio Dantas, sofria de irritabilidade amorosa, impulsos violentos e terrores noturnos.

D. Pedro morreu em 1367, em Estremoz, com 47 anos.

Os túmulos foram colocados no transepto, lado a lado, antes do altar de São Pedro. Em 1827 foram colocados topo a topo, voltados um para o outro — origem da lenda segundo a qual assim se veriam no Juízo Final. Hoje estão novamente no transepto, voltados um para o outro, mas afastados: à esquerda Inês, à direita Pedro.

Houve quatro tentativas de abrir os túmulos:

  1. por D. João III, em 1524

  2. por D. Sebastião, em 1569

  3. por Carlos VI, imperador da Alemanha, em 1704

  4. pelos soldados franceses, em 1810, que mutilaram as arcas na esperança de encontrar jóias.

Capela de São Bernardo

A Capela de São Bernardo conserva um magnífico conjunto escultórico em barro cozido do século XVI, representando a morte de São Bernardo. É uma verdadeira obra‑prima realizada pelos monges de Alcobaça.

Perto encontram‑se as pedras tumulares dos reis D. Afonso II e D. Afonso III, que também foram abertas por D. Sebastião em 1569. O rei ficou impressionado com a estrutura gigantesca do túmulo de D. Afonso III. Mais tarde, os franceses voltaram a abrir e a destruir estes túmulos.

Sala dos Túmulos — Século XVI

Esta sala foi destinada ao panteão real da primeira dinastia. Aqui encontram‑se vários túmulos, entre os quais os de D. Urraca, mulher de D. Afonso II, e D. Beatriz, mulher de D. Afonso III. As arcas são em estilo romano‑gótico, com influência bizantina.

Sacristia

A sacristia foi renovada nos séculos XVI e XVIII. Destaca‑se o magnífico portal manuelino de João de Castilho, com exuberante decoração naturalista: ramos entrelaçados, folhas, cogumelos e um arco conopial.

A sacristia é uma ampla sala com excelente mobiliário religioso. Contígua a ela encontra‑se uma capela‑relicário de planta centralizada, com magnífica imaginária barroca em talha dourada.

Em frente à sacristia situa‑se a Capela do Santíssimo Sacramento (século XVII), que também conserva outro portal manuelino de João de Castilho.

Mosteiro (Claustro)

O mosteiro tem planta quadrada, com 51 metros de lado, e dois pisos.

Primeiro piso — Século XIV (D. Dinis)

Deve‑se a Domingos Domingues e ao mestre Diogo. As galerias são largas, com abóbadas de arcos quebrados e redondos. Abrem‑se para o pátio interior através de arcadas compostas por arcos quebrados apoiados em colunelos geminados. As bandeiras são perfuradas por óculos. Do lado exterior, os vãos são limitados por arcos segmentados e separados por contrafortes muito salientes.

Segundo piso — Século XVI (D. Manuel)

Deve‑se a João de Castilho e Diogo de Castilho. A cobertura é de madeira, com arcos de volta perfeita apoiados em mísulas e inscritos em arcos abatidos.

Sala do Capítulo — Século XIV

O portal apresenta arquivoltas e colunas, tendo de cada lado duas aberturas. O interior tem três naves com abóbadas de nervuras. Os pilares centrais são formados por fechos em cogumelo, com capitéis de colchete, sem nervuras superiores, que se apoiam nas paredes e mísulas.

Parlatório

Sala comprida e estreita, com arcos torais e cruzamentos. Aqui encontra‑se um pequeno museu de lápides.

Sala de Trabalho

Ampla sala com duas filas de cinco colunas, cujos fustes lembram troncos de palmeiras. As nervuras, sem molduração, têm perfil quadrangular, próprio de espaços utilitários.

Cozinha

A cozinha tem 18 metros de altura e foi renovada no século XVIII. Está inteiramente revestida de azulejos brancos, cuja decoração resulta apenas da quadrícula, dos diferentes tons de esmalte e das ondulações da superfície, próprias da cozedura artesanal — especialmente visíveis nos azulejos de grande formato.

Possui uma enorme chaminé, mesas de mármore e um pequeno tanque de lavagem, percorrido por um braço do rio Alcoa. Ao lado situa‑se o grande celeiro.

Refeitório

Grande sala com 32 m por 30 m. A abóbada de cruzaria ogival é sustentada por colunas com capitéis de folhas e por uma dupla série de consolas, das quais partem nervuras de perfil retangular. Nas paredes abrem‑se várias janelas.

À esquerda, uma bela escadaria com elegante colunada conduz ao púlpito de leitura.

Em frente ao refeitório, no claustro, encontra‑se o lavabo octogonal, do século XIV.

Sala dos Reis — Século XVIII

A Sala dos Reis reúne as estátuas de todos os reis portugueses até D. José, com exceção de D. João III, do Cardeal D. Henrique, dos Felipes e de D. João IV. Os painéis de azulejo narram episódios da história do mosteiro. Aqui se encontra também o grande caldeirão em bronze capturado aos castelhanos na Batalha de Aljubarrota, capaz de alimentar 300 soldados.

Dormitório

No piso superior situa‑se o dormitório, uma vasta sala com 66 metros de comprimento. Divide‑se em três naves, sustentadas por colunas das quais partem nervuras simples.

Biblioteca

A biblioteca, também no piso superior, é uma sala de grande elegância, com 50 metros de comprimento e 24 janelas. Chegou a possuir mais de 25.000 volumes, incluindo obras impressas por Gutenberg no século XV. Após a extinção das ordens religiosas, em 1834, o seu recheio foi levado para Lisboa — Biblioteca Nacional e Torre do Tombo — perdendo‑se muitas obras no processo.


Alcobaça

 Alcobaça é um importante centro agrícola e industrial, situado na confluência dos rios Alcoa e Baça. A povoação tem origem remota e, durante o período muçulmano, chegou a possuir um poderoso castelo, hoje em ruínas.



Ordem de Cister

A Ordem de Cister nasceu de uma reforma da Ordem de São Bento, conduzida por São Roberto, abade de Molesme, que fundou o Mosteiro de Cister em 1098. A ordem enfrentou dificuldades iniciais, mas em 1112 São Bernardo ingressou com 30 companheiros, impulsionando uma expansão extraordinária. Em 1115 fundou o Mosteiro de Claraval e, à data da sua morte, em 1153, existiam já 338 abadias cistercienses na Europa. Os monges de Cister, conhecidos como monges brancos, distinguiam‑se dos monges negros beneditinos pelo hábito claro. A ordem entrou em Portugal no tempo de D. Teresa, fundando os mosteiros de São Cristóvão de Lafões (1138) e São João de Tarouca (1140), antes de marcar profundamente a região com o Mosteiro de Alcobaça.



Nazaré

 A Nazaré é um dos centros piscatórios mais típicos de Portugal e uma das praias mais concorridas da costa atlântica. A norte, é limitada pelo imponente promontório calcário onde se encontra a povoação do Sítio; para o interior, é fechada pelas arribas da Pederneira, antigas “ribas mortas”, escavadas por uma garganta epigénica que dá saída ao rio Alcobaça. Apesar do seu aspeto tradicional, a Nazaré é de origem relativamente recente: ainda no século XVI o mar chegava até à base das arribas, e os pescadores viviam no Sítio e na Pederneira. Do alto do Sítio, a cerca de 110 metros de altitude, obtém‑se um dos panoramas mais belos de Portugal.


Ermida da Memória — Século XII

Segundo a lenda, a 14 de setembro de 1182, numa manhã de nevoeiro, D. Fuas Roupinho, alcaide‑mor de Porto de Mós, perseguia um veado junto às arribas quando o animal desapareceu subitamente no precipício. O cavalo estacou no último instante, salvando o cavaleiro da queda.
Atribuindo o milagre à intervenção da Virgem, D. Fuas mandou construir naquele local a pequena Ermida da Memória.
Na rocha próxima, o povo identifica marcas que seriam da ferradura do cavalo do alcaide.













Igreja de Nossa Senhora da Nazaré — Séculos XIV–XVII

Segundo a tradição, no século IV um monge terá trazido da Nazaré, na Palestina, uma imagem da Virgem para um mosteiro perto de Mérida. No século VIII, o rei Rodrigo, acompanhado de Frei Romano, trouxe a imagem para o Sítio da Pederneira. Antes de morrer, Frei Romano escondeu‑a numa gruta, onde seria descoberta no século XII por pastores, dando origem ao culto de Nossa Senhora da Nazaré. A igreja, fundada no século XIV por D. Fernando, foi profundamente remodelada no século XVII. Possui duas torres sineiras e uma galeria alpendrada. O interior, de nave única com teto de madeira, apresenta paredes revestidas de azulejos do século XVIII. Na capela‑mor encontra‑se o trono com a imagem da Virgem e do Menino, do século XVIII, oferecida por D. João VI. A tradição afirma que a imagem primitiva permanece na Ermida da Memória.


 




Caldas da Rainha | Louça Tradicional, Rainha D. Leonor e a Costa Atlântica

 Louça das Caldas 


 A louça das Caldas é profundamente pitoresca e popular em todo o país. O seu fabrico remonta à fundação da vila, mas ganhou verdadeiro impulso no século XIX com a célebre fábrica de Maria dos Cacos e, mais tarde, com a obra inovadora de Rafael Bordalo Pinheiro. Bordalo introduziu na faiança caldense elementos da vida portuguesa — tipos populares, costumes, fauna e flora — criando peças de carácter único. Trata‑se de uma faiança de esmalte polido, cuja modelação, por vezes simples ou até grosseira, é compensada pelo seu sabor regional inconfundível e pelo encanto artístico que a tornou famosa.



Estátua da Rainha D. Leonor 


 À entrada das Caldas da Rainha, diante do Parque D. Carlos I, ergue‑se a estátua da Rainha D. Leonor, datada de 1985 e criada pelo escultor Francisco Franco. É uma homenagem à fundadora do Hospital Termal e à mulher visionária que deu origem à cidade.


Foz do Arelho

A Foz do Arelho é um pequeno povoado situado entre o mar e a Lagoa de Óbidos, junto à serra do Bouro. A sua praia é muito procurada, combinando a força do Atlântico com a tranquilidade da lagoa, num cenário natural de grande beleza.



São Martinho do Porto

A Concha de São Martinho é um dos acidentes geográficos mais pitorescos da costa portuguesa. A sua baía semicircular perfeita, com cerca de 1500 m por 400 m, comunica com o mar através de uma barra estreita de 200 m.
A profundidade reduzida e a forma abrigada fazem desta enseada um local único. A vila pertenceu ao Mosteiro de Alcobaça e foi, em tempos, um porto ativo por onde se exportavam produtos agrícolas e onde se construíram embarcações, incluindo algumas que participaram na expedição de Alcácer‑Quibir.
Hoje, São Martinho do Porto é uma estância balnear muito apreciada. Do Monte do Facho, a 95 m de altitude, obtém‑se um panorama magnífico sobre toda a baía.


Igreja de Nossa Senhora do Pópulo — Século XV - Parque D. Carlo I - Museu José Malhoa

 A Igreja de Nossa Senhora do Pópulo foi originalmente a capela do Hospital Termal e constitui um dos primeiros e mais notáveis exemplos do estilo manuelino, sendo tradicionalmente atribuída ao mestre Mateus Fernandes.

No exterior, destaca‑se a torre sineira elegante, rematada por um coruchéu em pirâmide octogonal. O conjunto inclui ainda o grupo escultórico da Saudação do Anjo a Maria e um baixo‑relevo representando a Virgem com o Menino — elementos que, mais tarde, foram parcialmente desfigurados pela colocação de um relógio pouco harmonioso. O corpo da igreja e a cabeceira, reforçados por contrafortes, são coroados por ameias. O portal lateral apresenta um arco de volta inteira, no qual se inscreve uma série de arquivoltas pequenas, ultrapassadas e justapostas.














O interior, de nave única, é inteiramente abobadado. Na capela‑mor, as nervuras convergem para chaves onde se observam um camaroeiro e um pelicano. O arco triunfal, de perfil policêntrico, simula as dobras de uma cortina.











O espaço é dominado por um tríptico do século XVI, atribuído ao Mestre da Lourinhã. Esta obra constitui um caso singular de integração estética, perfeitamente adaptada às proporções e regras do espaço. O tríptico é considerado uma das grandes obras‑primas da pintura portuguesa.


Parque D. Carlos I 


 O Parque das Caldas é amplo, harmonioso e de grande beleza, com jardins, lago, esculturas e percursos sombreados que reforçam o ambiente romântico e termal da cidade.


Museu José Malhoa O Museu José Malhoa reúne um notável acervo de pintura, desenho, gravura, escultura, medalhística, mobiliário e cerâmica. Destacam‑se obras de José Malhoa, Columbano, Silva Porto, Henrique Medina e Eduardo Malta. Na escultura sobressaem peças de Leopoldo de Almeida, Soares dos Reis, Teixeira Lopes e Francisco Franco. Na cerâmica, destacam‑se as figuras da Via Sacra em barro cozido de Rafael Bordalo Pinheiro e a peça de faiança esmaltada representando São Jorge e o Dragão.