Conta‑se que, ao sair de Coimbra em 1147 para a conquista de Santarém, D. Afonso Henriques passou pelo alto da serra de Alvados e aí fez voto de doar à Ordem de Cister todas as terras que dali fossem avistadas. De facto, em 1153 faz a doação de um vasto território, onde os monges se instalam de imediato em construções provisórias.
O mosteiro começou a ser construído em 1178 e as obras prolongaram‑se até 1252. Os reis concederam ao Mosteiro de Alcobaça numerosos privilégios e fizeram grandes doações, tornando‑o o mais prestigiado e rico de Portugal. Os abades de Alcobaça gozavam de grande consideração junto da corte portuguesa e da cúria romana; faziam parte do conselho do rei e assistiam aos concílios da Igreja. Ao princípio estavam sob obediência ao abade de Claraval, mas a partir do século XV passaram a depender diretamente do Papa.
Eram senhores de 14 vilas, entre as quais três portos de mar. Nos seus domínios mantinham direito civil e criminal: não se bradava “aqui d’el‑Rei”, mas sim “aqui do Abade”. Os domínios alcançaram cerca de 44.000 hectares, e os monges chegaram a quase uma centena.
Os monges de Alcobaça repartiam o seu tempo entre os ofícios religiosos e o trabalho manual. Mantinham absoluto silêncio, só falando quando o abade ou o prior o permitiam, comunicando entre si por sinais. Levavam uma intensa vida em comum: nunca estavam sós e não dormiam em celas individuais, mas sim em dormitórios coletivos.
Realizaram uma vasta obra de povoamento e desenvolvimento agrícola nos seus domínios. Fixaram‑se numerosos colonos que deram origem a várias povoações, sendo as mais antigas Aljubarrota, Alvorninha, Pederneira e Cós.
Nos lugares mais difíceis de povoar, devido à malária ou ao paludismo, como em São Martinho do Porto, instituíram os chamados “cotos”: criminosos que se refugiassem ali ficavam fora da alçada da justiça real e podiam viver com as suas famílias. Daí a designação popular de “cantos de Alcobaça” para os domínios do mosteiro.
Os monges arrotearam matos, cultivaram campos, plantaram vinhas, olivais e pomares, criaram gado, secaram pântanos, construíram estradas e pontes, introduziram as técnicas agrícolas mais modernas da época e escolheram as culturas de acordo com a natureza dos solos. Por outro lado, exerceram uma importante ação cultural: abriram aulas públicas em 1269 e dedicaram‑se aos estudos históricos, destacando‑se Frei António Brandão (séculos XVI–XVII).
Os privilégios obtidos e as riquezas acumuladas tiveram, porém, consequências nefastas. A direção do mosteiro passou a ser disputada e surgiram abades indignos. No tempo de D. João I, o abade D. João Dornelas aumentou os impostos, alterou os forais e humilhou os colonos, muitos dos quais emigraram. É a este abade que Alexandre Herculano se refere em O Monge de Cister. No tempo de D. João V, o abade D. Nicolau Vieira cedeu os seus direitos ao arcebispo de Lisboa, o famoso D. Jorge da Costa, cardeal de Alpedrinha, por uma renda anual de 150.000 réis — um grave delito de simonia, isto é, compra e venda de bens sagrados.
A decadência tornou‑se grande, mas no século XVIII, com o Marquês de Pombal, iniciou‑se um novo período de prosperidade: fizeram‑se grandes obras no mosteiro, secaram‑se pântanos, desenvolveu‑se a agricultura e atraíram‑se novos colonos. Contudo, a invasão francesa de 1810 e a extinção das ordens religiosas em 1834 causaram danos irreparáveis. Os monges fugiram já em 1833 e o mosteiro foi assaltado pelos liberais de Alcobaça, que pilharam móveis, quadros e tudo o que puderam levar. O saque durou 11 dias, sem que as autoridades interviessem.
A Igreja
A igreja de Alcobaça, dedicada a Nossa Senhora da Assunção e iniciada em 1178, é a primeira construção gótica feita em Portugal. É um caso especial, pois o estilo românico prolongou‑se por todo o século XIII e o gótico só tardiamente se generalizou no país. Trata‑se de uma cópia do Mosteiro de Claraval, construído em estilo gótico. A primeira construção gótica em Portugal foi o claustro da Sé Velha de Coimbra, em 1218.
A fachada foi profundamente alterada no século XVIII, em estilo barroco. Do gótico conserva o portal de sete arquivoltas quebradas, simples, apoiadas em colunelos lisos com capitéis de folhagem estilizada, e a rosácea de preenchimento radiante.
A fachada compreende:
parte inferior: portal e dois nichos com mísulas e baldaquinos contendo as imagens de São Bento e São Bernardo
parte intermédia: rosácea, duas janelas e quatro estátuas
parte superior: duas torres sineiras e, entre elas, o nicho com a imagem de Nossa Senhora da Assunção
A cabeceira é reforçada por arcobotantes, cujos botaréus assentam nas paredes das capelas radiantes, recebendo o impulso da abóbada. São os primeiros arcobotantes construídos em Portugal.
Interior
Com 106 metros de comprimento, é a maior igreja de Portugal. Tem três naves da mesma altura, sendo as laterais mais estreitas. As abóbadas têm três arcos torais e cruzamentos simples. Os arcos apoiam‑se em longas mísulas adossadas aos pilares, a cerca de 3 metros do solo. Os 24 pilares são cruciformes e compostos por colunas adossadas.
O transepto é largo e de duas naves, com quatro capelas quadradas. Nos topos vêem‑se janelas, óculos e portas. A capela‑mor é formada por um tramo retangular e uma abside de nove lados, desenvolvendo‑se em três andares:
arcadas peraltadas comunicando com o deambulatório de nove capelas radiantes
postigos
janelas altas
O conjunto impressiona pela verticalidade e austeridade.
No transepto encontram‑se os túmulos de D. Inês de Castro e D. Pedro (século XIV), considerados os mais belos de Portugal e um dos pontos altos da arte gótica. As estátuas jacentes são de grande realismo: a de Inês, de suave delicadeza; a de Pedro, de serena majestade. As arcas apresentam edículas nas faces longas e cenas diversas nas testeiras.
Túmulo de D. Inês de Castro
A estátua jacente mostra D. Inês com vestuário da época, cabeça apoiada numa almofada e protegida por um baldaquino. À volta, seis anjos. A arca assenta em seis figuras e os lados são decorados com edículas representando cenas da Paixão de Cristo. Na cabeceira há uma representação do Calvário e, aos pés, uma representação do Juízo Final.
D. Inês foi degolada em 1355 no Paço da Rainha, em Coimbra, com cerca de 30 anos. Foi sepultada em campa rasa na igreja de Santa Clara‑a‑Velha. Em 1362, foi trasladada com grande pompa para Alcobaça, acompanhada por clero, nobres, cavaleiros, damas e povo. Não é provável que tenha havido casamento secreto entre Inês e Pedro, mas é certo que D. Pedro quis que ela fosse considerada rainha. Por isso Camões lhe chamou, no século XVI, “mísera e mesquinha, que depois de morta foi rainha”.
Túmulo de D. Pedro
A estátua jacente representa D. Pedro como cavaleiro, segurando a espada. A cabeça coroada repousa sobre almofada; aos pés, um cão. A arca assenta em seis leões e está decorada com edículas nas faces laterais e cenas da vida de São Bartolomeu. Na cabeceira, uma grande rosácea com 18 nichos simboliza a Roda da Fortuna. Aparecem também cenas da paixão de Pedro e da morte de Inês.
A figura de D. Constança, sua esposa, surge com o ventre inchado, aludindo à morte de parto do futuro rei D. Fernando. Pedro casou primeiro com D. Branca, mas o casamento foi dissolvido. Depois casou com D. Constança, de quem teve três filhos: D. Maria, D. Luís (que morreu criança) e D. Fernando. D. Constança trouxe para seu serviço D. Inês de Castro, filha natural de um fidalgo galego. Pedro apaixonou‑se por Inês. Constança tentou impedir a relação, mas sem sucesso. Após a morte de Constança, Pedro passou a viver maritalmente com Inês, de quem teve quatro filhos: D. Afonso (morto criança), D. João, D. Dinis e D. Beatriz. Teve ainda um filho natural, D. João, futuro rei D. João I.
A influência política dos irmãos de Inês levou os conselheiros a convencer D. Afonso IV a ordenar a sua morte.
Segundo Fernão Lopes, D. Pedro tinha desequilíbrios de temperamento; segundo Alexandre Herculano, era “doido com intervalos lúcidos”; segundo Júlio Dantas, sofria de irritabilidade amorosa, impulsos violentos e terrores noturnos.
D. Pedro morreu em 1367, em Estremoz, com 47 anos.
Os túmulos foram colocados no transepto, lado a lado, antes do altar de São Pedro. Em 1827 foram colocados topo a topo, voltados um para o outro — origem da lenda segundo a qual assim se veriam no Juízo Final. Hoje estão novamente no transepto, voltados um para o outro, mas afastados: à esquerda Inês, à direita Pedro.
Houve quatro tentativas de abrir os túmulos:
por D. João III, em 1524
por D. Sebastião, em 1569
por Carlos VI, imperador da Alemanha, em 1704
pelos soldados franceses, em 1810, que mutilaram as arcas na esperança de encontrar jóias.
⭐ Capela de São Bernardo
A Capela de São Bernardo conserva um magnífico conjunto escultórico em barro cozido do século XVI, representando a morte de São Bernardo. É uma verdadeira obra‑prima realizada pelos monges de Alcobaça.
Perto encontram‑se as pedras tumulares dos reis D. Afonso II e D. Afonso III, que também foram abertas por D. Sebastião em 1569. O rei ficou impressionado com a estrutura gigantesca do túmulo de D. Afonso III. Mais tarde, os franceses voltaram a abrir e a destruir estes túmulos.
⭐ Sala dos Túmulos — Século XVI
Esta sala foi destinada ao panteão real da primeira dinastia. Aqui encontram‑se vários túmulos, entre os quais os de D. Urraca, mulher de D. Afonso II, e D. Beatriz, mulher de D. Afonso III. As arcas são em estilo romano‑gótico, com influência bizantina.
⭐ Sacristia
A sacristia foi renovada nos séculos XVI e XVIII. Destaca‑se o magnífico portal manuelino de João de Castilho, com exuberante decoração naturalista: ramos entrelaçados, folhas, cogumelos e um arco conopial.
A sacristia é uma ampla sala com excelente mobiliário religioso. Contígua a ela encontra‑se uma capela‑relicário de planta centralizada, com magnífica imaginária barroca em talha dourada.
Em frente à sacristia situa‑se a Capela do Santíssimo Sacramento (século XVII), que também conserva outro portal manuelino de João de Castilho.
⭐ Mosteiro (Claustro)
O mosteiro tem planta quadrada, com 51 metros de lado, e dois pisos.
Primeiro piso — Século XIV (D. Dinis)
Deve‑se a Domingos Domingues e ao mestre Diogo. As galerias são largas, com abóbadas de arcos quebrados e redondos. Abrem‑se para o pátio interior através de arcadas compostas por arcos quebrados apoiados em colunelos geminados. As bandeiras são perfuradas por óculos. Do lado exterior, os vãos são limitados por arcos segmentados e separados por contrafortes muito salientes.
Segundo piso — Século XVI (D. Manuel)
Deve‑se a João de Castilho e Diogo de Castilho. A cobertura é de madeira, com arcos de volta perfeita apoiados em mísulas e inscritos em arcos abatidos.
⭐ Sala do Capítulo — Século XIV
O portal apresenta arquivoltas e colunas, tendo de cada lado duas aberturas. O interior tem três naves com abóbadas de nervuras. Os pilares centrais são formados por fechos em cogumelo, com capitéis de colchete, sem nervuras superiores, que se apoiam nas paredes e mísulas.
⭐ Parlatório
Sala comprida e estreita, com arcos torais e cruzamentos. Aqui encontra‑se um pequeno museu de lápides.
⭐ Sala de Trabalho
Ampla sala com duas filas de cinco colunas, cujos fustes lembram troncos de palmeiras. As nervuras, sem molduração, têm perfil quadrangular, próprio de espaços utilitários.
⭐ Cozinha
A cozinha tem 18 metros de altura e foi renovada no século XVIII. Está inteiramente revestida de azulejos brancos, cuja decoração resulta apenas da quadrícula, dos diferentes tons de esmalte e das ondulações da superfície, próprias da cozedura artesanal — especialmente visíveis nos azulejos de grande formato.
Possui uma enorme chaminé, mesas de mármore e um pequeno tanque de lavagem, percorrido por um braço do rio Alcoa. Ao lado situa‑se o grande celeiro.
⭐ Refeitório
Grande sala com 32 m por 30 m. A abóbada de cruzaria ogival é sustentada por colunas com capitéis de folhas e por uma dupla série de consolas, das quais partem nervuras de perfil retangular. Nas paredes abrem‑se várias janelas.
À esquerda, uma bela escadaria com elegante colunada conduz ao púlpito de leitura.
Em frente ao refeitório, no claustro, encontra‑se o lavabo octogonal, do século XIV.
⭐ Sala dos Reis — Século XVIII
Aqui estão expostas as estátuas de todos os reis de Portugal até D. José.




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