quarta-feira, 13 de maio de 2026

Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça - Século XII

 Conta‑se que, ao sair de Coimbra em 1147 para a conquista de Santarém, D. Afonso Henriques passou pelo alto da serra de Alvados e aí fez voto de doar à Ordem de Cister todas as terras que dali fossem avistadas. De facto, em 1153 faz a doação de um vasto território, onde os monges se instalam de imediato em construções provisórias.

O mosteiro começou a ser construído em 1178 e as obras prolongaram‑se até 1252. Os reis concederam ao Mosteiro de Alcobaça numerosos privilégios e fizeram grandes doações, tornando‑o o mais prestigiado e rico de Portugal. Os abades de Alcobaça gozavam de grande consideração junto da corte portuguesa e da cúria romana; faziam parte do conselho do rei e assistiam aos concílios da Igreja. Ao princípio estavam sob obediência ao abade de Claraval, mas a partir do século XV passaram a depender diretamente do Papa.

Eram senhores de 14 vilas, entre as quais três portos de mar. Nos seus domínios mantinham direito civil e criminal: não se bradava “aqui d’el‑Rei”, mas sim “aqui do Abade”. Os domínios alcançaram cerca de 44.000 hectares, e os monges chegaram a quase uma centena.

Os monges de Alcobaça repartiam o seu tempo entre os ofícios religiosos e o trabalho manual. Mantinham absoluto silêncio, só falando quando o abade ou o prior o permitiam, comunicando entre si por sinais. Levavam uma intensa vida em comum: nunca estavam sós e não dormiam em celas individuais, mas sim em dormitórios coletivos.

Realizaram uma vasta obra de povoamento e desenvolvimento agrícola nos seus domínios. Fixaram‑se numerosos colonos que deram origem a várias povoações, sendo as mais antigas Aljubarrota, Alvorninha, Pederneira e Cós.

Nos lugares mais difíceis de povoar, devido à malária ou ao paludismo, como em São Martinho do Porto, instituíram os chamados “cotos”: criminosos que se refugiassem ali ficavam fora da alçada da justiça real e podiam viver com as suas famílias. Daí a designação popular de “cantos de Alcobaça” para os domínios do mosteiro.

Os monges arrotearam matos, cultivaram campos, plantaram vinhas, olivais e pomares, criaram gado, secaram pântanos, construíram estradas e pontes, introduziram as técnicas agrícolas mais modernas da época e escolheram as culturas de acordo com a natureza dos solos. Por outro lado, exerceram uma importante ação cultural: abriram aulas públicas em 1269 e dedicaram‑se aos estudos históricos, destacando‑se Frei António Brandão (séculos XVI–XVII).

Os privilégios obtidos e as riquezas acumuladas tiveram, porém, consequências nefastas. A direção do mosteiro passou a ser disputada e surgiram abades indignos. No tempo de D. João I, o abade D. João Dornelas aumentou os impostos, alterou os forais e humilhou os colonos, muitos dos quais emigraram. É a este abade que Alexandre Herculano se refere em O Monge de Cister. No tempo de D. João V, o abade D. Nicolau Vieira cedeu os seus direitos ao arcebispo de Lisboa, o famoso D. Jorge da Costa, cardeal de Alpedrinha, por uma renda anual de 150.000 réis — um grave delito de simonia, isto é, compra e venda de bens sagrados.

A decadência tornou‑se grande, mas no século XVIII, com o Marquês de Pombal, iniciou‑se um novo período de prosperidade: fizeram‑se grandes obras no mosteiro, secaram‑se pântanos, desenvolveu‑se a agricultura e atraíram‑se novos colonos. Contudo, a invasão francesa de 1810 e a extinção das ordens religiosas em 1834 causaram danos irreparáveis. Os monges fugiram já em 1833 e o mosteiro foi assaltado pelos liberais de Alcobaça, que pilharam móveis, quadros e tudo o que puderam levar. O saque durou 11 dias, sem que as autoridades interviessem.

A Igreja



A igreja de Alcobaça, dedicada a Nossa Senhora da Assunção e iniciada em 1178, é a primeira construção gótica feita em Portugal. É um caso especial, pois o estilo românico prolongou‑se por todo o século XIII e o gótico só tardiamente se generalizou no país. Trata‑se de uma cópia do Mosteiro de Claraval, construído em estilo gótico. A primeira construção gótica em Portugal foi o claustro da Sé Velha de Coimbra, em 1218.

A fachada foi profundamente alterada no século XVIII, em estilo barroco. Do gótico conserva o portal de sete arquivoltas quebradas, simples, apoiadas em colunelos lisos com capitéis de folhagem estilizada, e a rosácea de preenchimento radiante.

A fachada compreende:

  • parte inferior: portal e dois nichos com mísulas e baldaquinos contendo as imagens de São Bento e São Bernardo

  • parte intermédia: rosácea, duas janelas e quatro estátuas

  • parte superior: duas torres sineiras e, entre elas, o nicho com a imagem de Nossa Senhora da Assunção

A cabeceira é reforçada por arcobotantes, cujos botaréus assentam nas paredes das capelas radiantes, recebendo o impulso da abóbada. São os primeiros arcobotantes construídos em Portugal.


Interior


Com 106 metros de comprimento, é a maior igreja de Portugal. Tem três naves da mesma altura, sendo as laterais mais estreitas. As abóbadas têm três arcos torais e cruzamentos simples. Os arcos apoiam‑se em longas mísulas adossadas aos pilares, a cerca de 3 metros do solo. Os 24 pilares são cruciformes e compostos por colunas adossadas.

O transepto é largo e de duas naves, com quatro capelas quadradas. Nos topos vêem‑se janelas, óculos e portas. A capela‑mor é formada por um tramo retangular e uma abside de nove lados, desenvolvendo‑se em três andares:

  1. arcadas peraltadas comunicando com o deambulatório de nove capelas radiantes

  2. postigos

  3. janelas altas

O conjunto impressiona pela verticalidade e austeridade.

No transepto encontram‑se os túmulos de D. Inês de Castro e D. Pedro (século XIV), considerados os mais belos de Portugal e um dos pontos altos da arte gótica. As estátuas jacentes são de grande realismo: a de Inês, de suave delicadeza; a de Pedro, de serena majestade. As arcas apresentam edículas nas faces longas e cenas diversas nas testeiras.

Túmulo de D. Inês de Castro



A estátua jacente mostra D. Inês com vestuário da época, cabeça apoiada numa almofada e protegida por um baldaquino. À volta, seis anjos. A arca assenta em seis figuras e os lados são decorados com edículas representando cenas da Paixão de Cristo. Na cabeceira há uma representação do Calvário e, aos pés, uma representação do Juízo Final.

D. Inês foi degolada em 1355 no Paço da Rainha, em Coimbra, com cerca de 30 anos. Foi sepultada em campa rasa na igreja de Santa Clara‑a‑Velha. Em 1362, foi trasladada com grande pompa para Alcobaça, acompanhada por clero, nobres, cavaleiros, damas e povo. Não é provável que tenha havido casamento secreto entre Inês e Pedro, mas é certo que D. Pedro quis que ela fosse considerada rainha. Por isso Camões lhe chamou, no século XVI, “mísera e mesquinha, que depois de morta foi rainha”.



Túmulo de D. Pedro



A estátua jacente representa D. Pedro como cavaleiro, segurando a espada. A cabeça coroada repousa sobre almofada; aos pés, um cão. A arca assenta em seis leões e está decorada com edículas nas faces laterais e cenas da vida de São Bartolomeu. Na cabeceira, uma grande rosácea com 18 nichos simboliza a Roda da Fortuna. Aparecem também cenas da paixão de Pedro e da morte de Inês.

A figura de D. Constança, sua esposa, surge com o ventre inchado, aludindo à morte de parto do futuro rei D. Fernando. Pedro casou primeiro com D. Branca, mas o casamento foi dissolvido. Depois casou com D. Constança, de quem teve três filhos: D. Maria, D. Luís (que morreu criança) e D. Fernando. D. Constança trouxe para seu serviço D. Inês de Castro, filha natural de um fidalgo galego. Pedro apaixonou‑se por Inês. Constança tentou impedir a relação, mas sem sucesso. Após a morte de Constança, Pedro passou a viver maritalmente com Inês, de quem teve quatro filhos: D. Afonso (morto criança), D. João, D. Dinis e D. Beatriz. Teve ainda um filho natural, D. João, futuro rei D. João I.

A influência política dos irmãos de Inês levou os conselheiros a convencer D. Afonso IV a ordenar a sua morte.

Segundo Fernão Lopes, D. Pedro tinha desequilíbrios de temperamento; segundo Alexandre Herculano, era “doido com intervalos lúcidos”; segundo Júlio Dantas, sofria de irritabilidade amorosa, impulsos violentos e terrores noturnos.

D. Pedro morreu em 1367, em Estremoz, com 47 anos.

Os túmulos foram colocados no transepto, lado a lado, antes do altar de São Pedro. Em 1827 foram colocados topo a topo, voltados um para o outro — origem da lenda segundo a qual assim se veriam no Juízo Final. Hoje estão novamente no transepto, voltados um para o outro, mas afastados: à esquerda Inês, à direita Pedro.

Houve quatro tentativas de abrir os túmulos:

  1. por D. João III, em 1524

  2. por D. Sebastião, em 1569

  3. por Carlos VI, imperador da Alemanha, em 1704

  4. pelos soldados franceses, em 1810, que mutilaram as arcas na esperança de encontrar jóias.

Capela de São Bernardo

A Capela de São Bernardo conserva um magnífico conjunto escultórico em barro cozido do século XVI, representando a morte de São Bernardo. É uma verdadeira obra‑prima realizada pelos monges de Alcobaça.

Perto encontram‑se as pedras tumulares dos reis D. Afonso II e D. Afonso III, que também foram abertas por D. Sebastião em 1569. O rei ficou impressionado com a estrutura gigantesca do túmulo de D. Afonso III. Mais tarde, os franceses voltaram a abrir e a destruir estes túmulos.

Sala dos Túmulos — Século XVI

Esta sala foi destinada ao panteão real da primeira dinastia. Aqui encontram‑se vários túmulos, entre os quais os de D. Urraca, mulher de D. Afonso II, e D. Beatriz, mulher de D. Afonso III. As arcas são em estilo romano‑gótico, com influência bizantina.

Sacristia

A sacristia foi renovada nos séculos XVI e XVIII. Destaca‑se o magnífico portal manuelino de João de Castilho, com exuberante decoração naturalista: ramos entrelaçados, folhas, cogumelos e um arco conopial.

A sacristia é uma ampla sala com excelente mobiliário religioso. Contígua a ela encontra‑se uma capela‑relicário de planta centralizada, com magnífica imaginária barroca em talha dourada.

Em frente à sacristia situa‑se a Capela do Santíssimo Sacramento (século XVII), que também conserva outro portal manuelino de João de Castilho.

Mosteiro (Claustro)

O mosteiro tem planta quadrada, com 51 metros de lado, e dois pisos.

Primeiro piso — Século XIV (D. Dinis)

Deve‑se a Domingos Domingues e ao mestre Diogo. As galerias são largas, com abóbadas de arcos quebrados e redondos. Abrem‑se para o pátio interior através de arcadas compostas por arcos quebrados apoiados em colunelos geminados. As bandeiras são perfuradas por óculos. Do lado exterior, os vãos são limitados por arcos segmentados e separados por contrafortes muito salientes.

Segundo piso — Século XVI (D. Manuel)

Deve‑se a João de Castilho e Diogo de Castilho. A cobertura é de madeira, com arcos de volta perfeita apoiados em mísulas e inscritos em arcos abatidos.

Sala do Capítulo — Século XIV

O portal apresenta arquivoltas e colunas, tendo de cada lado duas aberturas. O interior tem três naves com abóbadas de nervuras. Os pilares centrais são formados por fechos em cogumelo, com capitéis de colchete, sem nervuras superiores, que se apoiam nas paredes e mísulas.

Parlatório

Sala comprida e estreita, com arcos torais e cruzamentos. Aqui encontra‑se um pequeno museu de lápides.

Sala de Trabalho

Ampla sala com duas filas de cinco colunas, cujos fustes lembram troncos de palmeiras. As nervuras, sem molduração, têm perfil quadrangular, próprio de espaços utilitários.

Cozinha

A cozinha tem 18 metros de altura e foi renovada no século XVIII. Está inteiramente revestida de azulejos brancos, cuja decoração resulta apenas da quadrícula, dos diferentes tons de esmalte e das ondulações da superfície, próprias da cozedura artesanal — especialmente visíveis nos azulejos de grande formato.

Possui uma enorme chaminé, mesas de mármore e um pequeno tanque de lavagem, percorrido por um braço do rio Alcoa. Ao lado situa‑se o grande celeiro.

Refeitório

Grande sala com 32 m por 30 m. A abóbada de cruzaria ogival é sustentada por colunas com capitéis de folhas e por uma dupla série de consolas, das quais partem nervuras de perfil retangular. Nas paredes abrem‑se várias janelas.

À esquerda, uma bela escadaria com elegante colunada conduz ao púlpito de leitura.

Em frente ao refeitório, no claustro, encontra‑se o lavabo octogonal, do século XIV.

Sala dos Reis — Século XVIII

Aqui estão expostas as estátuas de todos os reis de Portugal até D. José.


Alcobaça

 Alcobaça é um importante centro agrícola e industrial, situado na confluência dos rios Alcoa e Baça. A povoação tem origem remota e, durante o período muçulmano, chegou a possuir um poderoso castelo, hoje em ruínas.



Ordem de Cister

A Ordem de Cister nasceu de uma reforma da Ordem de São Bento, conduzida por São Roberto, abade de Molesme, que fundou o Mosteiro de Cister em 1098. A ordem enfrentou dificuldades iniciais, mas em 1112 São Bernardo ingressou com 30 companheiros, impulsionando uma expansão extraordinária. Em 1115 fundou o Mosteiro de Claraval e, à data da sua morte, em 1153, existiam já 338 abadias cistercienses na Europa. Os monges de Cister, conhecidos como monges brancos, distinguiam‑se dos monges negros beneditinos pelo hábito claro. A ordem entrou em Portugal no tempo de D. Teresa, fundando os mosteiros de São Cristóvão de Lafões (1138) e São João de Tarouca (1140), antes de marcar profundamente a região com o Mosteiro de Alcobaça.



Nazaré

 A Nazaré é um dos centros piscatórios mais típicos de Portugal e uma das praias mais concorridas da costa atlântica. A norte, é limitada pelo imponente promontório calcário onde se encontra a povoação do Sítio; para o interior, é fechada pelas arribas da Pederneira, antigas “ribas mortas”, escavadas por uma garganta epigénica que dá saída ao rio Alcobaça. Apesar do seu aspeto tradicional, a Nazaré é de origem relativamente recente: ainda no século XVI o mar chegava até à base das arribas, e os pescadores viviam no Sítio e na Pederneira. Do alto do Sítio, a cerca de 110 metros de altitude, obtém‑se um dos panoramas mais belos de Portugal.


Ermida da Memória — Século XII

Segundo a lenda, a 14 de setembro de 1182, numa manhã de nevoeiro, D. Fuas Roupinho, alcaide‑mor de Porto de Mós, perseguia um veado junto às arribas quando o animal desapareceu subitamente no precipício. O cavalo estacou no último instante, salvando o cavaleiro da queda.
Atribuindo o milagre à intervenção da Virgem, D. Fuas mandou construir naquele local a pequena Ermida da Memória.
Na rocha próxima, o povo identifica marcas que seriam da ferradura do cavalo do alcaide.













Igreja de Nossa Senhora da Nazaré — Séculos XIV–XVII

Segundo a tradição, no século IV um monge terá trazido da Nazaré, na Palestina, uma imagem da Virgem para um mosteiro perto de Mérida. No século VIII, o rei Rodrigo, acompanhado de Frei Romano, trouxe a imagem para o Sítio da Pederneira. Antes de morrer, Frei Romano escondeu‑a numa gruta, onde seria descoberta no século XII por pastores, dando origem ao culto de Nossa Senhora da Nazaré. A igreja, fundada no século XIV por D. Fernando, foi profundamente remodelada no século XVII. Possui duas torres sineiras e uma galeria alpendrada. O interior, de nave única com teto de madeira, apresenta paredes revestidas de azulejos do século XVIII. Na capela‑mor encontra‑se o trono com a imagem da Virgem e do Menino, do século XVIII, oferecida por D. João VI. A tradição afirma que a imagem primitiva permanece na Ermida da Memória.


 




Caldas da Rainha | Louça Tradicional, Rainha D. Leonor e a Costa Atlântica

 Louça das Caldas 


 A louça das Caldas é profundamente pitoresca e popular em todo o país. O seu fabrico remonta à fundação da vila, mas ganhou verdadeiro impulso no século XIX com a célebre fábrica de Maria dos Cacos e, mais tarde, com a obra inovadora de Rafael Bordalo Pinheiro. Bordalo introduziu na faiança caldense elementos da vida portuguesa — tipos populares, costumes, fauna e flora — criando peças de carácter único. Trata‑se de uma faiança de esmalte polido, cuja modelação, por vezes simples ou até grosseira, é compensada pelo seu sabor regional inconfundível e pelo encanto artístico que a tornou famosa.



Estátua da Rainha D. Leonor 


 À entrada das Caldas da Rainha, diante do Parque D. Carlos I, ergue‑se a estátua da Rainha D. Leonor, datada de 1985 e criada pelo escultor Francisco Franco. É uma homenagem à fundadora do Hospital Termal e à mulher visionária que deu origem à cidade.


Foz do Arelho

A Foz do Arelho é um pequeno povoado situado entre o mar e a Lagoa de Óbidos, junto à serra do Bouro. A sua praia é muito procurada, combinando a força do Atlântico com a tranquilidade da lagoa, num cenário natural de grande beleza.



São Martinho do Porto

A Concha de São Martinho é um dos acidentes geográficos mais pitorescos da costa portuguesa. A sua baía semicircular perfeita, com cerca de 1500 m por 400 m, comunica com o mar através de uma barra estreita de 200 m.
A profundidade reduzida e a forma abrigada fazem desta enseada um local único. A vila pertenceu ao Mosteiro de Alcobaça e foi, em tempos, um porto ativo por onde se exportavam produtos agrícolas e onde se construíram embarcações, incluindo algumas que participaram na expedição de Alcácer‑Quibir.
Hoje, São Martinho do Porto é uma estância balnear muito apreciada. Do Monte do Facho, a 95 m de altitude, obtém‑se um panorama magnífico sobre toda a baía.


Igreja de Nossa Senhora do Pópulo — Século XV - Parque D. Carlo I - Museu José Malhoa

 A Igreja de Nossa Senhora do Pópulo foi originalmente a capela do Hospital Termal e constitui um dos primeiros e mais notáveis exemplos do estilo manuelino, sendo tradicionalmente atribuída ao mestre Mateus Fernandes.

No exterior, destaca‑se a torre sineira elegante, rematada por um coruchéu em pirâmide octogonal. O conjunto inclui ainda o grupo escultórico da Saudação do Anjo a Maria e um baixo‑relevo representando a Virgem com o Menino — elementos que, mais tarde, foram parcialmente desfigurados pela colocação de um relógio pouco harmonioso. O corpo da igreja e a cabeceira, reforçados por contrafortes, são coroados por ameias. O portal lateral apresenta um arco de volta inteira, no qual se inscreve uma série de arquivoltas pequenas, ultrapassadas e justapostas.














O interior, de nave única, é inteiramente abobadado. Na capela‑mor, as nervuras convergem para chaves onde se observam um camaroeiro e um pelicano. O arco triunfal, de perfil policêntrico, simula as dobras de uma cortina.











O espaço é dominado por um tríptico do século XVI, atribuído ao Mestre da Lourinhã. Esta obra constitui um caso singular de integração estética, perfeitamente adaptada às proporções e regras do espaço. O tríptico é considerado uma das grandes obras‑primas da pintura portuguesa.


Parque D. Carlos I 


 O Parque das Caldas é amplo, harmonioso e de grande beleza, com jardins, lago, esculturas e percursos sombreados que reforçam o ambiente romântico e termal da cidade.


Museu José Malhoa O Museu José Malhoa reúne um notável acervo de pintura, desenho, gravura, escultura, medalhística, mobiliário e cerâmica. Destacam‑se obras de José Malhoa, Columbano, Silva Porto, Henrique Medina e Eduardo Malta. Na escultura sobressaem peças de Leopoldo de Almeida, Soares dos Reis, Teixeira Lopes e Francisco Franco. Na cerâmica, destacam‑se as figuras da Via Sacra em barro cozido de Rafael Bordalo Pinheiro e a peça de faiança esmaltada representando São Jorge e o Dragão.



                



💛 Origem das Caldas da Rainha

A origem do nome e da cidade de Caldas da Rainha está ligada à rainha D. Leonor, esposa de D. João II.

Em 1484, quando viajava de Óbidos para a Batalha, a rainha passou por uma zona onde viu vários doentes, em estado miserável, a banharem‑se em águas quentes e fumegantes. Segundo os cronistas, tratava‑se de pessoas que sofriam de “feralidades” — termo antigo para doenças reumáticas — e que procuravam alívio nas propriedades medicinais das águas sulfurosas.

Impressionada, D. Leonor ordenou que se fizessem experiências em diferentes nascentes, para escolher a de melhores efeitos terapêuticos. No ano seguinte, lançou a primeira pedra do balneário e do hospital, e começaram a surgir as primeiras habitações ao redor.

🏥 O Primeiro Hospital Termal do Mundo

O hospital termal fundado por D. Leonor é considerado o primeiro hospital termal construído no mundo.

D. João II apoiou a obra, e após a sua morte, já viúva, D. Leonor dedicou‑se inteiramente ao projeto, garantindo a sua conclusão.

Mais tarde, D. Manuel I elevou a povoação que cresceu em torno do hospital à categoria de vila. A administração do hospital foi entregue aos Cónegos Regrantes de São João Evangelista (os Loios), que o geriram até 1834, ano da extinção das ordens religiosas.




👑 D. João V e a Reconstrução do Século XVIII

O rei D. João V frequentou as termas durante vários anos, após sofrer um insulto apoplético em 1742, que o deixou parcialmente paralisado do lado esquerdo.

Apesar de as águas não lhe serem benéficas, o rei ordenou, em 1747, que o arquiteto Manuel da Maia reconstruísse totalmente o edifício termal. O conjunto que hoje conhecemos é, por isso, essencialmente do século XVIII.

💧 As Águas Termais

As águas das Caldas da Rainha são hipotermais (cerca de 35ºC) e muito sulfurosas, tradicionalmente indicadas para o tratamento de:

  • reumatismo

  • problemas osteoarticulares

  • afeções respiratórias

O complexo termal inclui:

  • duas grandes piscinas

  • quartos de banho individuais

  • instalações para duches, pulverizações, emanações e ligações

🌟 Caldas da Rainha no Século XIX e XX

Entre o final do século XIX e o início do século XX, as Caldas da Rainha tornaram‑se a estância termal mais frequentada do país, atraindo doentes, aristocratas, artistas e viajantes.

A cidade cresceu em torno do hospital, mantendo até hoje a identidade termal que lhe deu origem. 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Óbidos | Vila Medieval e Castelo da Rainha

 🏰 Óbidos — Vila Medieval

A vila de Óbidos é uma das mais pitorescas de Portugal, conservando grande parte do seu aspeto medieval. Está totalmente envolvida por uma cintura de muralhas e mantém o traçado original das suas ruas estreitas e casas caiadas.

Em 1148, foi reconquistada por D. Afonso Henriques. Segundo a tradição, guerreiros disfarçados com ramos de ginjeira, liderados por Gonçalo Mendes da Maia — o Lidador, subiram a encosta íngreme e, forçando uma porta desguarnecida, tomaram o castelo.

Mais tarde, D. Dinis ofereceu a vila à sua esposa, Rainha Santa Isabel, e desde então Óbidos passou a integrar a Casa das Rainhas, que perdurou até 1835.

🏯 Castelo de Óbidos

Situado no ponto mais alto da vila, o Castelo de Óbidos foi reconstruído por D. Dinis. As muralhas são reforçadas por torres quadrangulares e cilíndricas, destacando‑se a imponente Torre de Menagem.

Na ala norte, D. João de Noronha, alcaide da vila, mandou construir um palácio no século XVI. No andar nobre, observam‑se duas janelas geminadas manuelinas e um portal polilobado, sobre o qual figuram as armas dos Noronhas, encimadas pelo escudo real, a esfera armilar e o camaroeiro.

Atualmente, o edifício alberga a Pousada do Castelo, preservando o ambiente histórico e a vista sobre a vila.









🧱 Muralhas e Vila

As muralhas, datadas dos séculos XIII e XIV, atingem 13 metros de altura e cercam toda a vila. O caminho de ronda, conhecido como adrave, oferece panoramas magníficos sobre as casas e campos circundantes.

No interior, as casas caiadas de branco, muitas com portas ogivais, agrupam‑se em ruas estreitas e sinuosas, cheias de encanto. A Rua Direita atravessa toda a vila, ligando as principais portas:

  • Portas da Cerca e da Talhada (a norte)

  • Portas da Vila e do Vale ou de Nossa Senhora da Graça (a sul)

Estas últimas possuem oratórios revestidos de azulejos do século XVIII.






Igreja de Santa Maria

A Igreja de Santa Maria, muito antiga, foi reconstruída no século XVI. O portal renascentista apresenta no frontão a imagem de Santa Maria, e a torre sineira é rematada por um coruchéu cónico.

O interior, de três naves com colunas dóricas, tem cobertura de madeira e paredes revestidas de azulejos do século XVII. A capela‑mor, com abóbada de nervuras e bocetes, exibe talha dourada do século XVII.

Esta igreja guarda mais de vinte pinturas de Josefa d’Ayala, conhecida como Josefa D’Óbidos, uma das maiores artistas portuguesas do século XVII.

Destaca‑se ainda o túmulo de D. João de Noronha e sua esposa, obra do século XVI em pedra de Ançã (Coimbra), atribuída ao escultor Nicolau Chanterenne.